Igreja de Santa Maria de Blaquerna





Disambig grey.svg Nota: Para o outro santuário conhecido como "Meryem Ana" em Éfeso, veja Casa da Virgem Maria.






























Igreja de Santa Maria de Blaquerna


Vista exterior da igreja atual
Religião

Ortodoxa grega
Ano de consagração


  • atual: 1867 (152 anos)

  • histórica: 450 (1 569 anos)



Website

www.ec-patr.org/...
Geografia
País

 Turquia
Local

Istambul (Ayvansaray, Fatih)

Coordenadas

Coordenadas: 41° 02' 18" N 28° 56' 33" E


41° 02' 18" N 28° 56' 33" E

A Igreja de Santa Maria de Blaquerna (em grego: Θεοτòκος τών Βλαχερνών; transl.: Theotókos tón Blachernón; em turco: Meryem Ana Kilisesi) é uma igreja ortodoxa grega situada em Istambul, Turquia, no bairro de Ayvansaray (distrito de Fatih), no interior e a algumas centenas de metros das muralhas. O pequeno edifício atual data de 1867 e herdou o nome da igreja que foi erigida no local no século V e que foi um dos santuários mais importantes para os ortodoxos gregos até à sua destruição em 1434, sendo considerada a igreja mais importante de Constantinopla a seguir à Basílica de Santa Sofia.[1][nt 1]




Índice






  • 1 História


  • 2 Descrição


    • 2.1 Igreja original


    • 2.2 Igreja atual




  • 3 Notas


  • 4 Referências


  • 5 Bibliografia


  • 6 Ligações externas





História |


Em 450 a imperatriz bizantina Élia Pulquéria mandou construir uma igreja junto a uma fonte de água benta (em grego: hagiasma), situada fora das muralhas de Teodósio II, no sopé da sexta colina de Constantinopla. Depois da morte de Aélia, em 453, o santuário foi completado pelo seu marido, o imperador Marciano.[2]


O imperador Leão I, o Trácio (r. 457–474) erigiu outros dois edifícios perto da igreja: o Hagion Lousma (banho sagrado), que encerrava a fonte santa e um pareclésio[nt 2] chamado Hagia Soros (santo relicário) devido a nele se encontrar o manto sagrado e a túnica da Virgem Maria, trazidos da Palestina em 473.[1][2]João Damasceno, pregando na festa da Assunção no Getsemani, relembra que, de acordo com a "História Eutimiana" , Juvenal, bispo de Jerusalém, enviou para Constantinopla, em 452, por ordem do imperador Marciano e de Pulquéria, sua esposa, o "Manto da Virgem", que estava guardado numa igreja no local[3]. A relíquia passou a ser desde então venerada Igreja de Santa Maria de Blaquerna[4].




Mapa de 1420 de Constantinopla pelo florentino Cristóvão Buondelmonti. O bairro de Blaquerna é visível à esquerda do centro, abaixo do Corno de Ouro, rodeado pelas muralhas em dois lados.


A importância alcançada pelo complexo encorajou os imperadores a alojarem-se nas proximidades e construírem ali o núcleo do que viria a tornar-se o Palácio de Blaquerna séculos mais tarde.[5] Durante o primeiro quartel do século VI, Justino I e Justiniano I restauraram e aumentaram a igreja.[2]


Santa Maria de Blaquerna guardava um famoso ícone da Virgem, cujo nome derivou do da igreja: Blachernitissa. Era pintado em madeira e cravejado de ouro e prata. O ícone e as relíquias da Virgem conservadas no pareclésio eram considerados os talismãs bizantinos mais poderosos, muito úteis durante as guerras ou em caso de desastres naturais. A primeira prova do poder desses objetos ocorreu em 626. Durante esse ano Constantinopla foi cercada pelos exércitos combinados de ávaros e persas sassânidas enquanto o imperador Heráclio estava ausente a combater os persas na Mesopotâmia. O filho de imperador, Constantino, juntamente com o patriarca Sérgio I e o patrício Bono carregaram em procissão ao longo das muralhas o ícone da Blachernitissa. Algum tempo depois a frota dos ávaros foi destruída. O cagano ávaro diria depois que tinha sido aterrorizado pela visão de uma jovem mulher adornada com jóias esquadrinhando as muralhas.[6]


Depois do cerco, os bizantinos deram-se conta que o edifício da igreja, a qual se situava fora das muralhas, tinha sido o único que não foi saqueado pelos invasores.[6] Quando o Heráclio vitorioso voltou a Constantinopla trazendo consigo a Vera Cruz, que tinha sido confiscada pelos persas em Jerusalém, o Patriarca recebeu-o em Santa Maria. Algum tempo depois, o imperador construiu uma muralha para proteger a igreja, passando o subúrbio onde esta se encontrava a fazer parte da cidade.[5]


As vitórias bizantinas durante o cerco árabe de 717-718 e as invasões dos Rus' de 860 foram também atribuídas à proteção da Virgem de Blaquerna. Nesta ocasião, o Túnica da Virgem (mafório), mais uma relíquia que então já se tinha juntado às já existentes na igreja, foi submergida por breves instantes no mar para invocar a proteção de Deus para a armada bizantina.[7][nt 3] Alguns dias mais tarde a frota dos Rus' foi destruída.


Em 926, durante a guerra contra Simão I da Bulgária, o poder das relíquias ajudou a convencer o tsar búlgaro a negociar com os bizantinos em vez de atacar a cidade.[7] A 15 de agosto de 944, a igreja recebeu duas relíquias importantes: a carta escrita pelo rei Abgar V de Edessa para Jesus e o Mandílio (Imagem de Edessa). Ambas foram depois transferidas para a Igreja da Virgem do Farol, anexa ao Grande Palácio de Constantinopla.[9]





Ícone da Teótoco (Virgem Maria) conservado na Catedral da Anunciação, Kremlin de Moscovo, alegadamente a Blachernitissa que se encontrava originalmente em Santa Maria de Blaquerna.


Sendo um importante centro de veneração de imagens, a igreja teve um papel importante nas lutas religiosas dos bizantinos. Durante o período iconoclasta, a sessão final do Concílio de Hieria de 754, no qual o culto de imagens foi condenado, decorreu na igreja de Santa Maria.[7] Como consequência das decisões desse concílio, o imperador Constantino V ordenou que os mosaicos do interior fossem destruídos e substituídos por outros com cenas naturais de árvores, aves e outros animais.[10] Na mesma ocasião, o ícone da Blachernitissa foi também ocultado debaixo de uma camada de argamassa prateada.[2]


Em 843, com o fim da Iconoclastia, a festa do Triunfo da Ortodoxia foi celebrado pela primeira vez na igreja de Blaquerna com uma Agrypnia ("vigília sagrada"), a qual era celebrada no primeiro domingo da Quaresma.[7] A Blachernitissa foi redescoberta durante obras de restauro durante o reinado de Romano III Argiro[2] e tornou-se novamente um dos mais venerados ícones de Constantinopla.[6] Durante essas obras, os capitéis das colunas foram cobertos com folhas de prata e ouro.[2] A igreja foi completamente destruída por um fogo em 1070 e foi reconstruída por Romano IV Diógenes e Miguel VII Ducas respeitando a planta original.[6]


Segundo Ana Comnena, a princesa e historiadora bizantina do século XII, o chamado "milagre habitual" (em grego: synetés thauma) ocorreu na igreja diante do ícone da Virgem Blachernitissa. Numa sexta-feira depois do por do sol, quando a igreja estava vazia, o véu que cobria o ícone moveu-se lentamente, revelando a face da Virgem, voltando a cair de nova lentamente 24 horas depois. O milagre não ocorreu regularmente e cessou completamente depois da conquista latina da cidade.[11]


Durante parte da vigência do Império Latino (1204–1261), a igreja foi ocupado pelo clero latino e posta diretamente sob a alçada da Santa Sé. Ainda antes da queda do império latino, o imperador bizantino de Niceia João III Ducas Vatatzes (r. 1221–1254) recuperou a igreja e muitos mosteiros para o clero ortodoxo em troca de dinheiro.[9]


A 29 de fevereiro de 1434, algumas crianças da nobreza que estavam a caçar pombos no telhado da igreja pegaram-lhe fogo acidentalmente, tendo ardido completamente todo o complexo e o quarteirão vizinho.[6] A área foi muito negligenciada durante o período otomano. Em 1867, a guilda dos peleiros ortodoxos comprou os terrenos em volta da fonte sagrada e construiu a pequena igreja atualmente existente.



Descrição |




Fresco da Igreja da Deposição da Túnica, Moscovo, representando o patriarca Fócio e o imperador bizantino Miguel III, o Ébrio (r. 842–867) a molhar a Túnica da Virgem (mafório) no mar para invocar a proteção de Deus para a armada bizantina em 860.



Igreja original |


O complexo religioso de Blaquerna era composto por três edifícios: a Igreja de Santa Maria, a Capela do Relicário (Hagia Soros) e a Banho Sagrada (Hagion Lousma).[11]


A igreja propriamente dita, descrita por todas as fontes como "grande" (megas naos), era do tipo basílica, com o espaço interior dividido em três corredores por duas colunatas. A sua planta retangular, com 96 por 36 metros de lado, era similar à de muitas outras igrejas do mesmo tipo em Constantinopla, como por exemplo, São João de Estúdio.[10] Há indicações que Justiniano I construiu uma cúpula na igreja, pois Procópio de Cesareia menciona na sua obra De Edificiis que ambas as colunatas se curvavam no meio da nave descrevendo um semicírculo.[2]Justiniano II juntou duas alas laterais, dando à planta a forma de uma cruz, um facto lembrado em dois epigramas da Antologia Palatina.[10]


É provável que a reconstrução de 1070 tivesse respeitado a planta original. O embaixador castelhano Ruy González de Clavijo, que visitou Constantinopla em 1402, escreveu que o edifício estava divido em três naves, com a central mais alta do que as que a flanqueavam. As colunas eram de jaspe verde, com os capitéis em mármore branco esculpido e coberto a ouro. Nesse tempo a igreja já não tinha cúpula, mas um teto compartimentado multicolorido, decorado com grinaldas douradas.[10] As paredes eram cobertas com mármore multicolorido, em vez do laminado de prata original.[11] Perto do meio da nave havia um ambão de prata e no fundo erguia-se um iconostácio rodeado de esculturas. Na parte superior das paredes havia mosaicos representando os milagres de Cristo e diversos episódios da sua vida até à sua Ascensão.[10] A igreja tinha também tribunas e um oratório. O santuário comunicava com o Palácio Imperial de Blaquerna situado mais acima na encosta através de um pórtico e duma escadaria.[12]




Iluminura do século XIII mostrando uma visita do imperador Teófilo (813-842) à Igreja de Blaquerna


No lado direito da igreja situava-se o pareclésio de Hagia Soros, o qual continha o vestido e a túnica da Virgem e, mais tarde, também o véu e parte do cinto. Este edifício era redondo e tinha um nártex e tribunas.[12] Um ícone da Virgem, doado pelo imperador Leão I, o Trácio (r. 457–474) e pela sua esposa Élia Verina, também era aqui adorado. No lado direito era mantido um caixão adornado com ouro e prata, o qual continha as relíquias. Todos estes artefactos foram salvos da ocupação latina e depois da restauração do Império Bizantino foram guardados na igreja, mas foram todos destruídas durante o fogo de 1434, embora uma lenda conte que a Blachernitissa sobreviveu ao desastre e depois da Queda de Constantinopla em 1453 foi levada para um mosteiro do Monte Atos e posteriormente para Moscovo.[12]


A balneário, onde o imperador tomava banho, situava-se do lado direito do pareclésio e comunicava com este através duma porta. Era composto de três partes: um vestiário onde ele se despia, o colimbo (kolymbos; piscina) e a sala de São Fócio. A piscina encontrava-se no centro duma grande sala coberta com uma cúpula. Era decorada com ícones e a água corria para a piscina das mãos duma estátua de mármore da Virgem. Uma imagem de São Fócio decorava o centro da cúpula. Todos os anos, a 15 de agosto (Festa da Assunção), o imperador mergulhava três vezes na piscina sagrada depois da adoração do mafório (Santa Túnica) da Virgem.[13]



Igreja atual |




A Hagiasma (fonte de água benta) da igreja numa gravura de 1877


A pequena igreja que atualmente cobre a Hagiasma (fonte) tem planta trapezoidal com o chão inclinado e é decorada com ícones e frescos. Está orientada na direção noroeste-sudeste. A fonte sagrada, que se acredita ter poderes curativos, é um local de peregrinação popular tanto para cristão ortodoxos como para muçulmanos, os quais atiram à água moedas e ganchos de cabelo.[13] Os peregrinos podem também lavar os olhos numa fila de torneiras, acima das quais existe uma inscrição em grego com um palíndromo onde se lê: «Nipson anomemata me monan opsin» ("lava os pecados, não apenas os olhos").[14] O mesmo palíndromo, atribuído a Gregório de Nazianzo,[15] constava de uma inscrição da hagiasma da Basílica de Santa Sofia.[16]


A água escorre para uma galeria subterrânea que, de acordo com a tradição, liga com a Hagiasma do Mosteiro de Santa Maria da Fonte (Balıklı Meryem Ana Rum Manastiri) em Balıklı, no distrito de Zeytinburnu, do outro lado da península histórica de Istambul.[14]


A igreja está a cargo de um bispo (episkopos) e dois padres (papades).[17] Todas as sextas-feiras de manhã é cantado na igreja o hino Acátisto, composto pelo patriarca Sérgio I durante o cerco de 626.[14]


Dado que a igreja se situa numa área não urbanizada, é possível que em futuras escavações possam ser descobertos restos da antiga igreja bizantina.[1]



Notas |


  • Texto inicialmente baseado na tradução do artigo «Church of St. Mary of Blachernae (Istanbul)» na Wikipédia em inglês (acessado nesta versão).



  1. ↑ A importância da igreja é evidenciada por várias factos, entre eles o da existência de muitas igrejas "de Santa Maria de Blaquerna" espalhadas por todo o mundo ortodoxo, desde Creta a Quersoneso, na Crimeia.[2]


  2. ↑ O pareclésio é uma capela encostada ao lado duma igreja ou do seu nártex.


  3. ↑ Todos os anos a 2 julho uma grande festa na igreja, que comemorava a "deposição da Túnica" (o seu transporte de Jerusalém para Constantinopla).[8]



Referências




  1. ↑ abc Paliouras, Athanasios. «The Church of Panagia of Blachernæ». www.ec-patr.org (em inglês). Patriarcado Ecuménico de Constantinopla. Consultado em 20 de agosto de 2011. Cópia arquivada em 20 de agosto de 2011 


  2. ↑ abcdefgh Janin 1953, p. 169


  3. ↑ P.G. XCVI, 747-51


  4. ↑ Wikisource-logo.svg "Tomb of the Blessed Virgin Mary" na edição de 1913 da Enciclopédia Católica (em inglês). Em domínio público.


  5. ↑ ab Müller-Wiener 1977


  6. ↑ abcde Janin 1953, p. 170


  7. ↑ abcd Janin 1953, p. 171


  8. ↑ Janin 1953, p. 178


  9. ↑ ab Janin 1953, p. 172


  10. ↑ abcde Janin 1953, p. 175


  11. ↑ abc Janin 1953, p. 174


  12. ↑ abc Janin 1953, p. 176


  13. ↑ ab Mamboury 1953, p. 308


  14. ↑ abc Ronchey 2010, p. 715


  15. ↑ Preminger 1993, p. 874


  16. ↑ Langford-James 1923, p. 61


  17. ↑ Ronchey 2010, p. 714



Bibliografia |




  • Mamboury, Ernest (1953). The Tourists' Istanbul (em inglês). Istambul: Çituri Biraderler Basımevi 


  • Janin, Raymond (1953). La Géographie ecclésiastique de l'Empire byzantin. 1. Part: Le Siège de Constantinople et le Patriarcat Oecuménique (em francês). 3: Les Églises et les Monastères. Paris: Institut Français d'Etudes Byzantines 


  • Müller-Wiener, Wolfgang; Schiele, Renate; Schiele, Wolf (1977). Bildlexikon zur Topographie Istanbuls: Byzantion, Konstantinupolis, Istanbul Bis Zum Beginn (em alemão). Tübingen: Wasmuth. 534 páginas. ISBN 9783803010223  A referência emprega parâmetros obsoletos |coautor= (ajuda)


  • Ronchey, Silvia; Braccini, Tommaso (2010). Il romanzo di Costantinopoli: guida letteraria alla Roma d'Oriente (em italiano). Turim: Einaudi. ISBN 9788806189211  A referência emprega parâmetros obsoletos |coautor= (ajuda)


  • Preminger, Alex; Brogan, Terry V.F.; Warnke, Frank J. (1993). The New Princeton Encyclopedia of Poetry and Poetics (em inglês) 3ª ed. [S.l.]: Princeton University Press. 1383 páginas. ISBN 9780691021232  A referência emprega parâmetros obsoletos |coautor= (ajuda)


  • Langford-James, Richard Lloyd (1923). A Dictionary of the Eastern Orthodox Church (em inglês) 1976 ed. Nova Iorque: Burt Franklin. 144 páginas. ISBN 9780833742100. Consultado em 20 de agosto de 2011 



Ligações externas |




O Commons possui uma categoria contendo imagens e outros ficheiros sobre Igreja de Santa Maria de Blaquerna



  • «Blachernae». www.whereist.com (em inglês). 5 de janeiro de 2010. Consultado em 19 de agosto de 2011 


  • «Hidden treasures of Istanbul». www.turkeyforholidays.com (em inglês). Consultado em 19 de agosto de 2011. Arquivado do original em 27 de agosto de 2012 




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